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sábado, 22 de março de 2008

O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.

Adélia Prado

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
se descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

No Presépio


Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: "Nada como um frango com arroz depois da missa". Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja. Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da "luz que não fere os olhos" abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde "o leão come a palha com o boi", esta certeza me toma: "um menino pequeno nos conduzirá".

Adélia Prado

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Ninguém se assuste se eu virar assassina

"Ninguém se assuste se eu virar assassina. Eu já sou assassina, eu desejo a morte de tudo que obriga um menino a escrever: estou desesperado. O que é que eu faço, em que língua vou fazer um comício, uma passeata que irrompa nos gabinetes, nas salas dos professores que tomam cafezinho e arrotam sua incomensurável boçalidade sobre o susto de meninos desarmados? Fazem política, os desgraçados, brigam horas e horas pela aula a mais, o tostão a mais, o enquadramento, o quinquênio, o milênio de arrogância, frustração e azedume.

"Deus te abençoe, filhinho, vai pra escola, seja educado e respeitador, honra teu mestre." Mestre? Onde é que tem um mestre no Brasil pra que eu lhe beije as mãos?Já não basta ser gente pra encanecer de dor? Ainda têm as escolas que se aplicar neste esmero de esvaziar dos meninos seu desejo de bois, grama e pequenos córregos?Ó ofício demoníaco de encher de areia e confusão o que ainda é puro e tenro cálice.

Não quero dar aulas, ó meu Deus, me livra desta aflição, me deixa dormir, me deixa em paz, aula de nada, aula de religião eu não quero dar. Falo e me aflijo porque sei que não tem outro caminho senão começar de baixo, de trás, do fim da história, quando Deus pega Adão e lhe mostra as coisas, lhe deixa dar nome às coisas, lhe deixa, deixa, ruminando seu espanto, sua alegria, sua primeira palavra...

Ó senhor presidente, ó senhor ministro, escuta: o menino foi à aula e escreveu à sua mãe: estou desesperado. Escuta quem tenha ouvidos: os meninos do Brasil fenecem entre retórica, montanhas de papel e medo.

Entre ladrões, como Cristo na cruz.

Adélia Prado - do livro "Solte os cachorros"

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Neurolingüística


Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.

Adélia Prado

À mesa


Faca oxidada contra a polpa verde,
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.

Adélia Prado

domingo, 28 de outubro de 2007

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

[Adélia Prado]

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

ORFANDADE

Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

AMOR FEINHO

"Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
[ADÉLIA PRADO]

AURA

Em maio a tarde não arde
Em maio a tarde não dura
em maio a tarde fulgura.
[Adélia Prado]

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Poema esquisito

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra que, se para chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

Adélia Prado

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

MOMENTO

Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpídíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios,
contituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acontecimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que trite. Melhor é ser.

[Adélia Prado]

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Observando as formigas

Adélia Prado

Na adolescência, não saía da casa de Dona Alzira Guimarães, professora e mãe de minha amiga Diva, colega de escola. Entre os muitos encantos de sua casa, estava o de um guarda-louça abarrotado de livros. Morávamos muito perto, o que facilitava minhas idas à “biblioteca”. Tirei de lá, certamente, depois de ler todos os romances de M. Delly, uma revista chamada Kriterion, que me deixou fascinada. Estavam ali discutidas coisas que não entendia muito, mas o bastante para me abrir o apetite à cata de mais e mais. Foi como descobrir no quintal uma mina de ouro. Pois não eram meus aqueles pensamentos? Ainda por cima, davam sentido, fundamento e justificativa a gostos muito particulares e criticados que eu tinha de ficar “pensando”, e até dormindo às vezes, debaixo de um maravilhoso pé de abacate-manteiga. Descobri que as instigantes inquietações da minha cabeça eram normais, gente antiqüíssima, de antes de Cristo, se ocupava dos mesmos assuntos, especulando com nomes e expressões formidáveis, como ente, essência, matéria e forma, coisas e conceitos, primeiro motor, o ser, cuja essência é sua própria existência, o ser por excelência e mais: - oh, presente do céu – estavam lá santos da minha igreja, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, frades que, enquanto perseguiam a santidade, brigavam ou dialogavam com Platão e Aristóteles, filósofo que amei primeiro e deixei pra me casar com Platão, apesar dele falar mal dos poetas, o que pode ser um mal-entendido, impossível de desvendar pessoalmente, pois não sei grego. Tirava o fôlego de tão bom. Era como olhar formigas e de repente descobri: formiga é para sempre. Um gozo sensorial que se confundia bastante com o calor que me provocava o olhar dos moços sobre minha verde pessoa. Muitíssimo parecido com o sentimento despertado à leitura dos versos de Alphonsus de Guimaraens: “O cinamomo floresce em frente do teu postigo...” Maravilhoso! Eu já escrevia versos e eles brotavam, nunca tive dúvidas, daquele mesmo lugar de onde os filósofos garimpavam seus solilóquios. Havia uma unidade segurando minha experiência no mundo, que se revelava não apenas na teologia que explica minha fé. Mostrava-se igualmente na poesia e na filosofia, que eram coisas de Deus. Minha felicidade foi enorme. Alimentei-me desta certeza, até que em 1965 criou-se em Divinópolis-MG, minha cidade, a Faculdade de Filosofia. Estudei com gosto, sofreguidão e proveito as matérias do curso. Certifiquei-me de que a Filosofia escova o pensamento, que todo mundo filosofa naturalmente, que é um horror todas, absolutamente todas, as Faculdades não serem basicamente de Filosofia, podada em nossas escolas, prescindem delas, como obras do espírito, braços de um mesmo rio de nascente profunda. Tendem à misteriosa força que as cria e chama de volta ao seu centro divino, ao magnífico caos de onde emerge a sintaxe, ordenando pensamento e verso. Poesia e Metafísica, códigos, pulsações do que por enquanto não se vê face a face e nos enche de maravilha e temor.



PUCHEU, Alberto (org.), Poesia (e) Filosofia

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Ensinamento


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa
palavra de luxo.

Adélia Prado

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

As palavras e os nomes


Me atordoam da mesma forma os místicos
e as lojas de roupa com seus preços.
O dente apodrece
sem que eu levante um dedo para salvá-lo,
já que escolhi o medo como meu deus e senhor.
Tem pó demais na prateleira dos livros
e livros em demasia
e cartas cheias de si me atravancando o caminho:
'Escrever para mim é uma religião'
Os escritores são insuportáveis,
menos os sagrados,
os que terminam assim as suas falas:
'Oráculo do Senhor'.
Eu fico paralisada
porque desejo a posse desse fogo
e a roupa de talhe certo,
com tecidos de além-mar.
Ai, nunca vou fazer 'cantar d'amigo'.
No entanto, como se eu fora galega,
na minh'alma arrulham pombas,
tem beirais, tem manhãzinhas,
costureirinhas, pardais.
Meu nome agora é nenhum,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu,
Délia, Adel,Élia e Lia
e para desgraça minha
ainda Leda, Lea, Dália
Eda, Ieda e ainda Aia.
O melhor!
Aia, a criada de dama nobre,
a dama de companhia,
a que tem por ofício
anotar no papel a vida
espiar pela fresta
a ama gozando com o rei.
Borboleta, esta grafia,
este som é um erro
e os erros me interessam,
sacrifico as aranhas para saber de onde vêem.
A natureza obedece e é feliz,
a natureza só faz sua própria vontade,
não esborda de Deus.
Mas eu o que sou?

Adélia Prado

domingo, 5 de agosto de 2007

Como um bicho


O ritmo do meu peito é amedrontado
Deus me pega, me mata, vai me comer
o deus colérico.

Tan-tan, tan-tan,
um tambor antiquíssimo na selva
cada vez mais perigoso
porque o dia deserta,
tan-tan, tan-tan,
as estrelas são altas e os répteis astuciosos.
Tan-tan , meu pai, tan-tan,
ó minha mãe,
ponta de faca, dentes,
água,
água, não. Um pastor com a sua flauta no rochedo,
o que nada pode erodir.
Assim meus pés descansam
e minha alma pode dormir.

Tan-tan, tan-tan,
cada vez mais fraco.
Não é meu coração,
é só um tambor.

Adélia Prado

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Entrevista



Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Uma das maravilhas da criação eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara:
o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? Perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.


Adélia Prado

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O destino do alvissareiro

O poeta sofre o ridículo
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor das multidões’
Assim, o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim, amém,
cruz sobre terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta grande dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.


Adélia Prado

domingo, 29 de julho de 2007

Meditação à beira de um poema



Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro.

Adélia Prado